Manejo nos primeiros dias da soja é decisivo para preservar a produtividade em Mato Grosso

Especialistas da Aprosoja MT alertam para a importância do controle precoce de plantas daninhas, do monitoramento de pragas e dos cuidados com o solo, em uma safra marcada pelos custos elevados de produção.

O desenvolvimento inicial da soja exige atenção especial dos produtores rurais de Mato Grosso. Nas primeiras semanas após a emergência das plantas, decisões relacionadas ao manejo, à nutrição e ao controle de pragas podem influenciar diretamente o potencial produtivo da lavoura.

Por isso, o acompanhamento frequente das áreas é fundamental para identificar problemas e evitar perdas difíceis de reverter ao longo do ciclo.

A orientação é reforçada por pesquisadores dos Centros Tecnológicos da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT), localizados nas regiões dos Parecis e do Araguaia. Segundo os especialistas, os primeiros 30 dias após a emergência representam uma etapa importante para a formação do estande, o desenvolvimento das raízes e o estabelecimento da cultura.

De acordo com Rodrigo Knevitz Hammerschmitt, coordenador de pesquisa do CTECNO Parecis, o trabalho começa antes mesmo da semeadura, com a escolha de sementes de qualidade e alto vigor. Depois do plantio, é necessário verificar a uniformidade da emergência, a quantidade de plantas estabelecidas e a existência de falhas nas linhas.

O produtor também precisa avaliar a necessidade de replantio com cautela. O custo das sementes e do tratamento pode representar uma parcela significativa do investimento na lavoura, o que torna indispensável analisar a população de plantas e as condições de desenvolvimento antes de tomar essa decisão.

Controle de plantas daninhas exige rapidez

Entre os principais desafios do início da safra está o combate às plantas daninhas, que competem com a soja por água, luz e nutrientes. Quando não controladas no momento adequado, elas podem comprometer a produtividade, dificultar a colheita e aumentar a presença de impurezas nos grãos.

André Somavilla, coordenador de pesquisa do CTECNO Araguaia, explica que a fase de maior atenção se estende, de maneira geral, até o fechamento das entrelinhas da soja. Nesse intervalo, a cultura precisa se desenvolver sem competição excessiva para aproveitar melhor os recursos disponíveis.

A recomendação é planejar o manejo desde o início, considerando as tecnologias de resistência a herbicidas presentes nas cultivares e as características de cada área. A escolha e a dosagem dos produtos pré-emergentes também devem levar em conta a textura do solo, já que terrenos argilosos e arenosos apresentam comportamentos diferentes.

Quanto mais cedo ocorrer a identificação e o controle das plantas invasoras, menores serão as chances de competição prolongada com a cultura.

Pragas e raízes precisam de acompanhamento

Lagartas, besouros, percevejos e organismos que atacam o sistema radicular podem prejudicar o estabelecimento da lavoura. Embora o tratamento de sementes ajude na proteção inicial, ele não elimina a necessidade de vistorias periódicas.

Quando forem encontradas plantas mortas, debilitadas ou com crescimento irregular, os especialistas recomendam investigar a origem do problema antes de aplicar defensivos. A falha pode estar relacionada tanto à presença de pragas quanto a fatores físicos do solo.

Em áreas de textura siltosa, por exemplo, chuvas intensas podem provocar o endurecimento da camada superficial, dificultando a emergência das plântulas. Sem um diagnóstico correto, esse problema pode ser confundido com danos causados por insetos.

Outro aspecto importante é a fixação biológica de nitrogênio, processo fundamental para a nutrição da soja. Entre 20 e 30 dias após a emergência, o produtor pode retirar algumas plantas cuidadosamente e observar as raízes para verificar a formação dos nódulos associados às bactérias responsáveis por transformar o nitrogênio atmosférico em uma forma aproveitável pela cultura. A coloração interna rosada ou avermelhada costuma indicar atividade desses nódulos.

Calendário de manejo e custos entram na conta

Com a lavoura estabelecida, o cumprimento do planejamento agronômico passa a ser determinante. Conforme as orientações dos pesquisadores, a adubação de cobertura com cloreto de potássio deve ser programada, quando indicada, entre 15 e 20 dias após a emergência. Já o início das aplicações de fungicidas pode ocorrer entre 20 e 25 dias, conforme as condições da lavoura, o histórico da área e a necessidade de prevenção ou controle de doenças.

Aplicações foliares de micronutrientes, como cobalto, molibdênio e manganês, devem ser avaliadas de acordo com a necessidade identificada. O controle de pragas e plantas daninhas também precisa seguir o monitoramento e as recomendações técnicas.

O planejamento, entretanto, enfrenta dificuldades econômicas nesta safra. Diogo Balistieri, vice-presidente Norte da Aprosoja MT, relata que parte dos produtores reduziu ou até suspendeu a adubação diante das limitações financeiras.

Embora a redução de fertilizantes diminua o desembolso imediato, a decisão pode comprometer o rendimento futuro. Em áreas que receberam adubação adequada durante vários anos, a fertilidade acumulada no solo pode contribuir para manter resultados satisfatórios, mas isso depende das condições de cada propriedade e não elimina os riscos da retirada de nutrientes.

Características do solo mudam as estratégias

As diferenças entre os solos de Mato Grosso exigem estratégias específicas de manejo.

Nos terrenos arenosos, a menor capacidade de retenção de água aumenta o risco de estresse hídrico durante períodos sem chuva. Essas áreas também podem apresentar maior perda de determinados nutrientes, o que torna importante avaliar o parcelamento da adubação e o momento de semear.

Nos solos siltosos, o principal cuidado está relacionado ao selamento superficial, que pode se formar após chuvas intensas e dificultar a emergência das plantas, além de reduzir a infiltração de água.

Já os solos argilosos geralmente apresentam maior capacidade de retenção de água e nutrientes. Entretanto, a compactação e o tráfego de máquinas quando o terreno está úmido podem prejudicar a estrutura do solo e limitar o desenvolvimento das raízes.

Para os pesquisadores, não existe uma receita única para todas as lavouras. O manejo deve considerar as limitações físicas e químicas de cada ambiente, as condições climáticas e a realidade financeira do produtor.

A recomendação geral é evitar aplicações de inseticidas sem monitoramento, não adiar o controle de plantas daninhas e adaptar as decisões agronômicas às características da propriedade. O cuidado desde o início é uma das principais ferramentas para proteger o potencial produtivo da soja e melhorar a eficiência dos investimentos ao longo da safra.

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