Mato Grosso encerrou a colheita do algodão e agora concentra esforços no beneficiamento da fibra, no controle de pragas e na preparação das lavouras para o próximo ciclo. Ao mesmo tempo, os embarques brasileiros da commodity começaram outubro em ritmo superior ao registrado no mesmo mês do ano passado, reforçando a importância de acompanhar tanto o desempenho no campo quanto as condições do mercado externo.
Nos primeiros sete dias úteis de outubro de 2026, a média diária das exportações brasileiras de algodão chegou a 15.566,5 toneladas, avanço de 16,5% sobre a média de 13.360,4 toneladas por dia útil registrada em outubro de 2025. Os números são da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
O resultado nacional ocorre em um momento decisivo para a cotonicultura mato-grossense. Depois de uma expansão expressiva ao longo das últimas duas décadas, o Estado mantém volumes elevados de produção e uma cadeia que vai muito além da fabricação de tecidos, com aproveitamento de subprodutos na alimentação animal, na indústria e na produção de biocombustíveis.
Beneficiamento do algodão avança nas usinas de Mato Grosso
Com a colheita concluída, o beneficiamento já alcançava entre 45% e 80% do volume colhido nas usinas de Mato Grosso, conforme levantamento referente ao período de 27 de setembro a 2 de outubro. O percentual varia entre as unidades acompanhadas e indica que uma parcela significativa da produção ainda passa pelas etapas industriais de preparação.
O levantamento foi realizado pelo Instituto Mato-grossense do Algodão (IMAmt), ligado à Associação Mato-grossense dos Produtores de Algodão (Ampa), em parceria com o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea). As avaliações registraram perspectivas positivas para a qualidade da fibra e o rendimento industrial do material processado.
O beneficiamento separa a pluma das sementes e de outras impurezas, preparando os produtos para os respectivos destinos comerciais. A qualidade obtida nessa etapa influencia a utilização industrial da fibra e pode interferir na valorização da produção.
Para Mato Grosso, que ocupa posição de destaque na cotonicultura brasileira, o desempenho das unidades de beneficiamento é uma etapa importante entre a produção agrícola e a comercialização. O volume colhido, isoladamente, não conta toda a história: a qualidade do produto, o rendimento industrial e as condições de venda também pesam no resultado econômico da safra.
Exportações crescem em volume e valor médio
Além do aumento na média diária dos embarques, o algodão brasileiro apresentou valorização no preço médio de exportação. A tonelada foi comercializada, em média, por US$ 1.730,40 nos primeiros sete dias úteis de outubro de 2026, contra US$ 1.623 em outubro do ano passado. A diferença representa alta de 6,6%.
A combinação de maior volume diário e preço médio superior também elevou a receita média dos embarques. O faturamento diário passou de US$ 21,684 milhões em outubro de 2025 para US$ 26,936 milhões no período inicial deste mês, crescimento de 24,2%.
Até a segunda semana de outubro, os embarques somavam 108.965,5 toneladas e geravam aproximadamente US$ 188,55 milhões. No mesmo mês de 2025, o Brasil exportou 293.928,5 toneladas, com receita de US$ 477,05 milhões ao longo de 22 dias úteis.
A comparação exige atenção: os números de 2026 representam apenas os primeiros sete dias úteis, enquanto os dados de 2025 abrangem o mês inteiro. Portanto, o avanço da média diária é um indicador de ritmo, e não significa que o total mensal já tenha superado o resultado do ano anterior.
Também é importante separar a evolução dos preços médios de uma eventual valorização específica do algodão produzido em Mato Grosso. Os dados da Secex se referem às exportações brasileiras, e não permitem atribuir automaticamente todo o avanço ao desempenho comercial de um único Estado.
Produção estadual mais que triplicou em menos de duas décadas
A dimensão da cotonicultura mato-grossense ajuda a explicar a relevância dos indicadores de beneficiamento e comércio exterior. Na safra 2007/08, o Estado produziu 1,99 milhão de toneladas de algodão em caroço, em uma área de aproximadamente 530 mil hectares.
Na safra 2024/25, o volume chegou a 7,32 milhões de toneladas, recorde da série apresentada pelo Imea. O crescimento acumulado foi de 267,3%, enquanto a área cultivada avançou 192,9%, alcançando cerca de 1,55 milhão de hectares.
Os números mostram que a expansão ocorreu tanto pela ampliação da área quanto pelos ganhos de produtividade. Na safra 2025/26, o rendimento médio chegou a 330,25 arrobas por hectare, alta de 31,4% em relação às 251,27 arrobas por hectare registradas em 2007/08.
Após o recorde de produção de 2024/25, os volumes recuaram para 6,81 milhões de toneladas em 2025/26. Para 2026/27, a estimativa apresentada pelo Imea é de 6,65 milhões de toneladas. Mesmo abaixo do pico histórico, os dois números permanecem em patamar elevado na trajetória recente do setor.
Algodão abastece pecuária, indústria e energia
A importância econômica da cultura não se limita à pluma utilizada na indústria têxtil. O caroço do algodão também possui valor comercial e pode ser processado para a obtenção de óleo, farelo e torta, produtos que encontram aplicações na alimentação humana, na nutrição animal e em diferentes segmentos industriais.
O farelo e a torta são utilizados na alimentação de bovinos, enquanto o óleo pode ser destinado ao consumo humano e servir de matéria-prima para determinados processos industriais, inclusive os relacionados à produção de biocombustíveis. A casca do caroço também pode ser aproveitada na alimentação animal.
Outro subproduto é o línter, formado por fibras muito curtas que permanecem aderidas ao caroço depois do beneficiamento. Embora não tenha comprimento adequado para a produção convencional de tecidos, esse material pode ser utilizado na fabricação de celulose, filtros, papel-moeda e insumos empregados pela indústria farmacêutica.
Esse aproveitamento diversificado conecta a cotonicultura a outras atividades relevantes para Mato Grosso, especialmente a pecuária e a indústria de transformação. Quanto maior a capacidade de destinar os diferentes componentes da planta a mercados específicos, maior é o potencial de reduzir desperdícios e agregar valor à produção.
Controle do bicudo é prioridade depois da colheita
O encerramento da colheita não representa o fim do trabalho nas áreas de algodão. Na entressafra, os produtores concentram esforços na destruição dos restos culturais e no controle do bicudo-do-algodoeiro, uma das principais pragas da cultura.
Entre as medidas adotadas estão a retirada de rolinhos de algodão que permanecem no campo, a destruição das soqueiras e o uso de armadilhas e tubos mata-bicudo. O objetivo é diminuir as condições que favorecem a sobrevivência e a multiplicação do inseto entre uma safra e outra.
O manejo nesse intervalo é estratégico porque a presença de plantas remanescentes pode manter a praga nas áreas de produção e elevar os riscos para o ciclo seguinte. A adoção das medidas de controle contribui para reduzir a pressão do bicudo, embora não elimine a necessidade de monitoramento contínuo durante a próxima safra.
Preparação da próxima safra ocorre junto ao plantio da soja
Enquanto as equipes avançam no beneficiamento do algodão e na limpeza das áreas, o plantio da soja também começa a ganhar espaço no calendário agrícola estadual. No período acompanhado pelo levantamento, a semeadura havia alcançado 10,23% da área prevista para Mato Grosso.
A região Oeste apresentava o maior avanço, com 18,42% da área plantada, seguida pelo Médio-Norte, com 14,64%. As chuvas registradas nas semanas anteriores favoreceram o início dos trabalhos, mas a distribuição irregular da umidade manteve a necessidade de cautela em algumas localidades.
O andamento da soja é relevante para o planejamento agrícola porque a organização das operações, o calendário de plantio e as condições climáticas influenciam a sequência das atividades nas propriedades. No caso do algodão, o manejo adequado da entressafra continua sendo uma das medidas necessárias para proteger o potencial produtivo do próximo ciclo.
O que os indicadores revelam para o algodão de Mato Grosso
Os dados apontam três movimentos simultâneos: a continuidade do processamento da safra estadual, a manutenção da produção em níveis elevados e um início de outubro com ritmo diário mais forte nas exportações brasileiras. Cada indicador, porém, mede uma etapa diferente da cadeia e precisa ser interpretado dentro de seu próprio período de referência.
Na análise editorial do CenárioMT, a força da cotonicultura mato-grossense está na combinação entre escala agrícola, produtividade e aproveitamento industrial. O desempenho exportador amplia a relevância do mercado externo, mas o resultado econômico para os produtores também depende da qualidade da fibra, dos custos de produção, da eficiência do beneficiamento e das condições de comercialização.
Com a colheita encerrada, o foco imediato se desloca para a conclusão do beneficiamento e o controle das pragas. Ao mesmo tempo, os números de exportação oferecem um sinal inicial positivo para o comércio brasileiro de algodão, sem antecipar, por si só, como ficará o fechamento do mês ou a rentabilidade final da safra mato-grossense.
Receba em primeira mão nossas notícias, tendências e exclusivas.